Energia do futuro

Maura Campanili, para Eurobike Magazine 24 (6/7/8 – 2013)

Investir na primeira fábrica brasileira de placas fotovoltaicas para gerar eletricidade foi uma decisão que atendia à filosofia do empresário mineiro Marcelus Geraldo de Araújo, presidente da Tecnometal, empresa fundada por ele há 23 anos. “A empresa tem como princípio ser inovadora. O desenvolvimento tecnológico está em nosso DNA, assim como ter orgulho de atuar no Brasil, a despeito do ambiente de inovação não ser amistoso no país. Aqui, se gosta do que vem de fora, por isso é preciso energia extra para a introdução de novidades. A aceitação não é imediata”, diz.

Apesar das dificuldades, o empresário acredita ter apostado certo ao criar, em sua unidade de Campinas, São Paulo, a divisão Tecnometal Energia Solar há cerca de dois anos. “A energia solar é limpa e representa um passo adiante. Seu sucesso comercial é uma questão de tempo”, avalia o engenheiro, que começou atuando na área de mineração até criar a Tecnometal, cujo carro-chefe ainda é a produção de equipamentos de grande porte para mineradoras em sua sede mineira, localizada em Vespasiano, na Grande Belo Horizonte.

A produção das placas fotovoltaicas, realizada em uma linha de montagem importada dos Estados Unidos e também com equipamentos nacionais, é bastante diferente das placas utilizadas para aquecer água a partir da radiação solar, de uso mais comum no país. A placa fotovoltaica converte luz solar em energia, ou seja, consegue gerar corrente elétrica a partir da presença do sol. Araújo explica que o sistema pode ser utilizado em pequenas e grandes instalações. “Para acender uma lâmpada, usamos uma placa pequena; um motor, algumas placas; uma cidade, um parque fotovoltaico. A característica básica é a presença de luz; assim, quanto mais luz, maior a eficiência.”

A grande vantagem deste tipo de energia, conforme o empresário, é que não usa uma fonte extinguível e pode ser produzida no ponto de consumo. “É uma forma de energia sustentável e economicamente interessante, principalmente para áreas remotas do país, muitas delas desconectadas da rede elétrica, onde ainda é caro levar energia”, defende. Ele lembra que o Brasil conta com uma incidência solar muito maior do que a Alemanha, onde esse tipo de energia é muito difundida. “Em grande parte do país, a eficiência é alta, sobretudo no Norte e Nordeste, por isso optamos por entrar nessa área.” Além da sustentabilidade e da eficiência, Araújo tem convicção de que a energia fotovoltaica será indispensável em um futuro próximo. “O Brasil ainda se dá o luxo de achar que é cara, principalmente por dispor de recursos hídricos abundantes — mas seu aproveitamento está cada vez mais dispendioso e com maiores restrições por conta do impacto ambiental”, diz. O empresário afirma que, mesmo hoje, quando se compara os custos de abastecimento de locais remotos, como a região da Amazônia, abastecida com diesel, a opção fotovoltaica já é mais barata, considerando o preço do litro do combustível, sem contar a questão ecológica. “O que define a utilização, porém, é a decisão da sociedade e política.”

Empreendedor arrojado

Nascido em Minas Gerais, o coração da mineração no Brasil, e formado em Engenharia Mecânica, Marcelus Araújo considera natural ter direcionado a carreira para a área de mineração. Trabalhando em uma empresa de consultoria especializada neste setor, ele teve oportunidade de resolver desafios de grande porte. “Os clientes traziam problemas como retirar lingotes de ouro na mina e depositá-los no cofre. Em empresas desta natureza, é a equipe mecânica que lida com essas questões e a solução é sempre fracionar o problema e chamar pessoas para resolver por partes.”

Esta lição levou Araújo a empreender sua própria empresa, em 1990, quando percebeu nichos para equipamentos especiais, que o mercado não estava disposto a produzir. Criou a Tecnometal para fabricar máquinas de transporte de cargas para a área de granéis em mineradoras. Entre seus clientes, estão gigantes como Vale, Samarco e EBX. “Desde o início, a ideia era ter uma empresa que desenvolvesse engenharia, tivesse capacidade produtiva e gostasse de desafios. Essa característica não se apagou ao longo do tempo. Por sempre buscar coisas novas, acabei entrando em áreas diferentes”, conta.

A oportunidade de diversificar apareceu no final da década de 1990, com o boom da automação bancária no Brasil, quando faltavam provedores de cofres e gabinetes para os caixas automáticos. A Tecnometal foi procurada e topou entrar nessa área. Hoje, a empresa tem a maior produção desses equipamentos no país, “algo da ordem de dezenas de milhares de cofres”.

O pulo do gato no novo segmento se deu alguns anos depois, quando sua maior competidora (e líder de mercado), a multinacional APW Brasil Ltda., localizada em Campinas, resolveu deixar o país. Araújo resolveu comprar a empresa e canalizar para São Paulo toda a unidade de cofres e gabinetes para caixas automáticos.

Depois disso, surgiu a oportunidade de adquirir a Koch, empresa alemã especializada também em movimentação de granéis, mas que trabalhava com um transportador flexível de forma tubular, cujo impacto ambiental é muito menor, por carregar o minério de forma enclausurada. “Para se ter uma ideia, enquanto o transportador convencional sobe e desce, como um tobogã, o circular faz curvas complexas, como uma montanha russa”, entusiasma-se o engenheiro, hoje líder no Brasil também no fornecimento dessa solução.

Diversificação

A decisão de entrar no setor de energia fotovoltaica veio da necessidade de diversificar, importante, na visão de Marcelus Araújo, para garantir a estabilidade e sustentabilidade do grupo. “A geração de energia sempre nos instigou, tanto que já tínhamos experiência na produção de equipamentos para pequenas centrais hidrelétricas. Quando percebi a possibilidade de investir em energia solar, fomos atrás de informação, participar de congressos etc. Vi que tudo estava pronto, mas ninguém se movia nessa direção. Por isso, resolvi me adiantar e montar esta indústria. O principal núcleo de desenvolvimento tecnológico na área, no país, está aqui”, disse.

Por enquanto, a divisão de placas fotovoltaicas produz apenas por encomenda, como no caso do Condomínio Taxaquara, em São Roque, onde a iluminação das ruas é composta por postes autônomos fotovoltaicos. Entre os projetos realizados para empresas, está um centro de pesquisas para a Embrapa, em Brasília. Em São Paulo, será instalada uma usina de energia solar para abastecer o Parque Villa-Lobos, na Zona Oeste da cidade. O projeto foi anunciado pelo governo do Estado, responsável pelo parque, para ter início em julho próximo. No momento, está em discussão a localização das placas, que deverão ficar em área de expansão do parque.

Segundo Araújo, há também negociações para a instalação de placas em dois estádios da Copa do Mundo, embora o negócio ainda não tenha sido fechado. Ainda neste ano, a unidade da Tecnometal em Campinas, onde são fabricadas as placas fotovoltaicas, deverá ser abastecida com este tipo de energia e tornar-se um showroom da empresa.

Para o empresário, a aprovação pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), no ano passado, da regulamentação para que os consumidores de energia elétrica possam ser também geradores de energia, é também um incentivo e poderá ser uma revolução no mercado das placas fotovoltaicas. “O Brasil tem muito espaço, tanto em telhados de prédios como em locais que não têm outro uso, como áreas abandonadas, não agricultáveis.”

Sucessão

Com 1.450 funcionários e previsão de faturamento em torno de 550 milhões de reais ao ano, a Tecnometal é uma empresa totalmente privada, cujos sócios são Marcelus e sua esposa Alcione, que é psicóloga e nunca atuou no grupo. “Desde o início, escolhemos que ela teria uma vida profissional independente e minha família não teria a obrigação de arcar com meus sonhos. Hoje, porém, minhas filhas trabalham na empresa e são muito bem-vindas”, diz Araújo. A mais velha, Maiari, é advogada e gerente do departamento jurídico há três anos, depois de terminar o MBA nos Estados Unidos. A caçula, Alethea, depois de se formar em administração de empresas no ano passado, entrou para o programa de trainee, para conhecer a empresa e decidir se é o que realmente gosta de fazer.

“A empresa cresceu bastante e é uma carga grande para pessoas tão jovens. Se a empresa ficar com elas, estará em boas mãos, mas tudo tem seu tempo. Não adianta condenar uma pessoa a sonhos que não são seus”, diz.

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