Category ArchiveREVISTA IMPRENSA

Áreas protegidas e desenvolvimento regional

Por Maura Campanili

As unidades de conservação brasileiras costumam figurar (quando aparecem) como tema de matérias em cadernos de turismo ou meio ambiente. Quando são motivo de conflito, ganham algum destaque nas editorias de geral. Pouco se fala de sua importância econômica e social, e em seu potencial para alavancar o desenvolvimento de muitas regiões do país tão carentes de opções.

O motivo dessa defasagem de informação certamente não é por falta de áreas protegidas – o país conta com mais de 70 parques nacionais (sem contar os estaduais e municipais, e outros tipos de unidades de conservação que também permitem visitação). A questão é que, se já há uma falta de entendimento generalizada no país em relação à relevância ambiental dessas áreas – e sobre a importância econômica indireta relacionada aos serviços ambientais que proporcionam -, como pautar o tema sob a ótica da economia?

Um estudo lançado no final de outubro pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) coloca alguma luz sobre o assunto. De acordo com o estudo, que reuniu especialistas da Universidade da Flórida (EUA), Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Universidade de São Paulo e do próprio ICMBio, em 2015, os turistas brasileiros e estrangeiros gastaram cerca de R$ 1,1 bilhão nos municípios do entorno das unidades de conservação. Com isso, foram gerados 43 mil empregos diretos, R$ 1 bilhão em renda, outros R$ 1,5 bilhão em valor agregado e mais R$ 4,1 milhões em vendas. Apenas o setor de hospedagem concentrou R$ 267 milhões. Os resultados mostram que a cada real investido nessas áreas, sete reais retornam para a economia.

Se esses números parecem animadores, são ainda irrisórios diante do potencial que representam. Segundo o estudo, em 2015, pouco mais de 8 milhões de pessoas passaram pelas 61 unidades de conservação federal que têm visitação controlada; em 2017, até o momento, já foram mais de 8,5 milhões, mostrando que esse número vem crescendo. Mas, como de resto na economia nacional, a passos lentos e sem vontade. Apenas como termo de comparação, em 2015, 307 milhões de pessoas visitaram os parques nacionais norte-americanos.

Entre os motivos para a baixa visitação às áreas protegidas brasileiras estão a falta de divulgação e de estrutura desses locais: o acesso normalmente é péssimo, a estrutura de atendimento – quando existente – é precária. Quando essas questões são resolvidas, os turistas aparecem. Prova disso é que os parques nacionais da Tijuca (RJ) e do Iguaçu (PR) concentram 25% desses visitantes.

Falta ao poder público entendimento sobre essa questão: todas as instâncias de governo são mais do que relutantes em criar e investir nas áreas protegidas. A comunidade e a iniciativa privada também não enxergam seu potencial e pouco fazem para valorizá-las. Um exemplo comezinho: estive em Ouro Preto no último feriado e queria conhecer o Parque Estadual do Itacolomi. Mesmo localizado bem na entrada da cidade, o parque não consta em nenhum dos guias e folhetos que recebi e, no hotel, desaconselharam a visita porque “lá não tem nada para fazer”. Teimosa, fui e constatei que é um local belíssimo, com três museus, várias trilhas autoguiadas, com lugar para nadar e fazer piquenique.

Ajudar a mostrar o potencial das áreas protegidas para alavancar o desenvolvimento regional é um papel que a imprensa pode colaborar em muito. O estudo “Contribuições do Turismo em Unidades de Conservação Federais para a Economia Brasileira – Efeitos dos gastos dos visitantes em 2015”, do ICMBio, é um bom exemplo de pauta, ao colocar números no que antes era apenas intuído.

(Artigo publicado na Revista Imprensa 328, edição de dezembro/2017-janeiro/2018) http://digital.maven.com.br/pub/revistaimprensa/?numero=328